14/07/2011 10h46 - Atualizado em 14/07/2011 10h47
ONG investe R$ 1 milhão em escola para atender pantaneiros em MS
Escola conta com quatro professores e atende 42 alunos em Corumbá.
Instituto aplicou recursos de doações na construção de unidade no Pantanal.
Durante décadas, a educação no campo foi privilégio para poucos. A escassez de escolas, a dificuldade de acesso e o analfabetismo dos mais velhos eram fatores que colaboravam para deixar as crianças fora da escola. Para ajudar no desenvolvimento de regiões de difícil acesso, como o Pantanal sul-mato-grossense, algumas organizações não-governamentais tentam suprir a carência educacional de muitas crianças, que estão descobrindo aos poucos lições como português, matemática, história.
(O Bom Dia MS exibe reportagens especiais sobre os desafios da educação em regiões mais afastadas, como no pantanal sul-mato-grossense.)
O pantanal é um patrimônio da humanidade onde homem e natureza têm uma convivência harmoniosa. No campo, nos rios, na pesca, na preservação, o pantaneiro inventou um jeito próprio de viver. Feito com a cultura da intuição, o conhecimento repassado de pai para filho. Sem uma linha escrita no papel.
Mas os números, as letras e o conhecimento dos livros ainda são desconhecidos por muitos homens e mulheres que vivem no isolamento das águas. "Só assino, eu não tenho estudo", conta o ribeirinho Antônio Caetano.
A esposa, dona Dalvina de Moura, conta que nunca entendeu o sentido das letras. Depois de adulta, preferiu não arriscar. "De criança eu não estudei, depois de adulta que eu vou pegar em uma caneta? Não, vou pegar em um cabo de machado, vou carpir e roçar, plantar uma mandioca para dar aos meus filhos o que comer", diz a dona de casa.
Mas os filhos, não vão seguir a mesma sina, garante o pai. "Agradeço muito ter esse colégio para eles aqui, com assistência tão boa que nem em minha casa eles comem comida tão boa como no colégio", orgulha-se o ribeirinho.
Há alguns minutos de barco da residência da família, rio abaixo, Darlan e Madalena acompanham atentos às lições da professora. Dois anos atrás, as crianças deixaram a casa dos pais para viver na escola. Eles aprendem a ler e escrever, e começam a entender o sentida de cidadania. "Primeiro tem que lavar a mão, e cada dia vai um na frente da fila para servir. Tem que respeitar o outro", conta Madalena, de 9 anos.
Quem chega à escola Jatobazinho, distante 150 quilômetros de Corumbá, surpreende-se com o modelo de ensino e a organização. No local, 42 meninos e meninas cursam da primeira à quinta série. Quatro professores que se revezam em quatro disciplinas, português, matemática, ciências e estudos sociais. É quase uma ilha de estrutura em um mar dominado pela força da natureza.
A escola foi construída em uma das poucas áreas aterradas da região. No passado, funcionava um hotel de pescadores. Depois do investimento de R$ 1 milhão, oriundo de doações, a estrutura foi adaptada para virar colégio. Por causa do aterramento, tornou-se um dos pontos mais altos da região, e é capaz de resistir à cheia do rio Paraguai.
O trabalho começou com a iniciativa da empresária Teresa Brascher. Encantada pelo pantanal, ela comprou a fazenda Santa Tereza para preservar. São mais de 60 mil hectares de área privada. Ela conta que, quando chegou, interessou-se também pelo povo da região. Durante um ano, pesquisou a vida e as necessidades famílias ribeirinhas. "Essa população vive esparsa, isolada e sem acesso a serviços públicos básicos, como saúde e educação. As crianças estavam às vezes com 15 anos e analfabetas", conta a presidente do Instituto Acaia.
A compra da área foi o primeiro passo para colocar o projeto em funcionamento. O instituto, uma organização não-governamental criada pela empresária, é quem administra a escola. Alimentação, salários dos professores, roupas, uniformes, materiais escolares e tudo que é necessário para a escola funcionar são custeados com recursos de um grupo que reúne empresas, poder público, instituições estrangeiras e até doadores individuais. Uma rede de solidariedade que ajuda a transformar vidas.
Brincando, Orlando reconhece a terra onde nasceu e descobre lugares que nem imaginava existirem. O menino de onze anos, que nunca saiu do pantanal, encontrou na escola um universo cheio de novidades. "A savana tem capão, pouca árvore, é seca e tem bicho diferente daqui", explica.
Algumas lições do colégio estão muito distantes da realidade das crianças que nasceram e vivem no isolamento pantaneiro. Algumas nunca foram a um supermercado. Mas quem se importa, se está tudo nos livros?
No mundo da imaginação, a vida urbana é reproduzida aos moldes pantaneiros. Como no mundo real, eles resolvem problemas praticando. "Trabalhar com o faz-de-conta é uma forma de dar espaço para essas crianças, e elas vão percebendo que estão aprendendo", diz a professora Laura Fonseca.
Nesta região afastada, o acesso a outros serviços essenciais como saúde, por exemplo, também é precário. Mas os alunos não ficam sem atendimento. A ajuda vem no barco da Marinha. Dois médicos, dois dentistas e quatro enfermeiros visitam a escola a cada dois meses.
Cada aluno tem uma ficha com acompanhamento individual. Acostumados com a visita, eles perdem o medo e aprendem a cuidar da própria saúde. "Conseguimos uma melhoria na qualidade de vida, e isso é interessante porque também retorna para nós o sentimento de um dever bem cumprido", pontua o capitão-tenente Fábio da Silva Inácio, comandante do navio.
Desde que chegou à escola, Elielton não ajuda mais o pai a catar iscas, e já começa a entender de números, letras, animais. A lição mais importante o menino tímido, ele traz na ponta da língua. "Quando eu crescer, vou ser fazendeiro e vender laranja. Se não estudar, não aprende nada", afirma o menino de 9 anos.
(O Bom Dia MS exibe reportagens especiais sobre os desafios da educação em regiões mais afastadas, como no pantanal sul-mato-grossense.)
O pantanal é um patrimônio da humanidade onde homem e natureza têm uma convivência harmoniosa. No campo, nos rios, na pesca, na preservação, o pantaneiro inventou um jeito próprio de viver. Feito com a cultura da intuição, o conhecimento repassado de pai para filho. Sem uma linha escrita no papel.
Mas os números, as letras e o conhecimento dos livros ainda são desconhecidos por muitos homens e mulheres que vivem no isolamento das águas. "Só assino, eu não tenho estudo", conta o ribeirinho Antônio Caetano.
A esposa, dona Dalvina de Moura, conta que nunca entendeu o sentido das letras. Depois de adulta, preferiu não arriscar. "De criança eu não estudei, depois de adulta que eu vou pegar em uma caneta? Não, vou pegar em um cabo de machado, vou carpir e roçar, plantar uma mandioca para dar aos meus filhos o que comer", diz a dona de casa.
Mas os filhos, não vão seguir a mesma sina, garante o pai. "Agradeço muito ter esse colégio para eles aqui, com assistência tão boa que nem em minha casa eles comem comida tão boa como no colégio", orgulha-se o ribeirinho.
Há alguns minutos de barco da residência da família, rio abaixo, Darlan e Madalena acompanham atentos às lições da professora. Dois anos atrás, as crianças deixaram a casa dos pais para viver na escola. Eles aprendem a ler e escrever, e começam a entender o sentida de cidadania. "Primeiro tem que lavar a mão, e cada dia vai um na frente da fila para servir. Tem que respeitar o outro", conta Madalena, de 9 anos.
Quem chega à escola Jatobazinho, distante 150 quilômetros de Corumbá, surpreende-se com o modelo de ensino e a organização. No local, 42 meninos e meninas cursam da primeira à quinta série. Quatro professores que se revezam em quatro disciplinas, português, matemática, ciências e estudos sociais. É quase uma ilha de estrutura em um mar dominado pela força da natureza.
A escola foi construída em uma das poucas áreas aterradas da região. No passado, funcionava um hotel de pescadores. Depois do investimento de R$ 1 milhão, oriundo de doações, a estrutura foi adaptada para virar colégio. Por causa do aterramento, tornou-se um dos pontos mais altos da região, e é capaz de resistir à cheia do rio Paraguai.
O trabalho começou com a iniciativa da empresária Teresa Brascher. Encantada pelo pantanal, ela comprou a fazenda Santa Tereza para preservar. São mais de 60 mil hectares de área privada. Ela conta que, quando chegou, interessou-se também pelo povo da região. Durante um ano, pesquisou a vida e as necessidades famílias ribeirinhas. "Essa população vive esparsa, isolada e sem acesso a serviços públicos básicos, como saúde e educação. As crianças estavam às vezes com 15 anos e analfabetas", conta a presidente do Instituto Acaia.
A compra da área foi o primeiro passo para colocar o projeto em funcionamento. O instituto, uma organização não-governamental criada pela empresária, é quem administra a escola. Alimentação, salários dos professores, roupas, uniformes, materiais escolares e tudo que é necessário para a escola funcionar são custeados com recursos de um grupo que reúne empresas, poder público, instituições estrangeiras e até doadores individuais. Uma rede de solidariedade que ajuda a transformar vidas.
Brincando, Orlando reconhece a terra onde nasceu e descobre lugares que nem imaginava existirem. O menino de onze anos, que nunca saiu do pantanal, encontrou na escola um universo cheio de novidades. "A savana tem capão, pouca árvore, é seca e tem bicho diferente daqui", explica.
Algumas lições do colégio estão muito distantes da realidade das crianças que nasceram e vivem no isolamento pantaneiro. Algumas nunca foram a um supermercado. Mas quem se importa, se está tudo nos livros?
No mundo da imaginação, a vida urbana é reproduzida aos moldes pantaneiros. Como no mundo real, eles resolvem problemas praticando. "Trabalhar com o faz-de-conta é uma forma de dar espaço para essas crianças, e elas vão percebendo que estão aprendendo", diz a professora Laura Fonseca.
Nesta região afastada, o acesso a outros serviços essenciais como saúde, por exemplo, também é precário. Mas os alunos não ficam sem atendimento. A ajuda vem no barco da Marinha. Dois médicos, dois dentistas e quatro enfermeiros visitam a escola a cada dois meses.
Cada aluno tem uma ficha com acompanhamento individual. Acostumados com a visita, eles perdem o medo e aprendem a cuidar da própria saúde. "Conseguimos uma melhoria na qualidade de vida, e isso é interessante porque também retorna para nós o sentimento de um dever bem cumprido", pontua o capitão-tenente Fábio da Silva Inácio, comandante do navio.
Desde que chegou à escola, Elielton não ajuda mais o pai a catar iscas, e já começa a entender de números, letras, animais. A lição mais importante o menino tímido, ele traz na ponta da língua. "Quando eu crescer, vou ser fazendeiro e vender laranja. Se não estudar, não aprende nada", afirma o menino de 9 anos.




